Jacaré do Papo Amarelo

JACARÉ DO PAPO AMARELO – CAIMAN LATIROSTRIS

As informações aqui contidas são resultado do trabalho que vem sendo desenvolvido pelo Comitê do Studbook Regional do Jacaré de Papo Amarelo, Caiman latirostris, colocadas a disposição via Internet através de projeto conjunto com a BDT.

Os crocodilianos são répteis pertencentes à Sub-classe Arqueosauria, a mesma dos dinossauros e pterosauros, tendo- se diferenciado como grupo a cerca de 205 milhões de anos no Triássico Superior.

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Atualmente encontram- se divididos em três sub-famílias, oito gêneros e vinte e duas espécies. Cinco delas, todas pertencentes a sub-família Alligatorinae, encontram- se no Brasil, sendo chamadas indistintamente de “jacarés” ou distinguídas umas das outras por sufixos de origem tupi- guarani ou termos em língua portuguesa. São elas:

  • jacaré-açu (Melanosuchus niger),
  • jacarépaguá (Paleosuchus palpebrosus),
  • jacaré-curuá ou em sua forma aportuguesada jacaré-coroa (P. trigonatus),
  • jacaré-tinga e jacaré-do- Pantanal (Caiman crocodilus crocodilus e C. crocodilus yacare, respectivamente) e
  • jacaré-de-papo-amarelo (C. latirostris).

O jacaré-de-papo-amarelo encontra-se ameaçado de extinção. A causa principal deste processo tem sido a sistemática destruição de seus habitats de ocorrência natural que são as lagoas marginais e várzeas de rios das regiões Sul, Sudeste e Nordeste do Brasil. O couro e carne de grande valor contribuiram também para seu declínio populacional devido à caça excessiva.

Muitos métodos de utilização econômica e conservação têm sido aplicados em vários países do mundo com as diversas espécies de crocodilianos. Estes projetos baseiam-se em geral em programas de propagação em cativeiro das espécies ameaçadas de extinção, repovoamento de áreas naturais, exploração racional de populações nativas e criação em cativeiro das espécies mais valiosas.

Os crocodilianos são vertebrados de hábito anfíbio, que vivem em rios, lagos, várzeas, pântanos, igarapés e estuários. Estes habitats variam em qualidade da água, concentração de sal e outras características e encontramse ecologicamente ligados a comunidades terrestres que incluem desertos, savanas, campos cerrados e florestas. A maior parte deles é encontrada nos trópicos, embora possam se estender a algumas regiões de clima subtropical (ALCALA DY- LIACCO, 1989).

O comportamento dos crocodilanos, apesar de sua aparente imobilidade é complexo, surpreendente e bastante diferente dos demais répteis. De acordo com sua funções primárias ele pode ser dividido em três categorias básicas: mantença, social e reprodutivo. Na primeira categoria incluem-se os seguintes ítens: atividade sazonal e diária, locomoção, forrageamento, termorregulação, balanço hídrico e osmótico, territorialidade, modificações no habitat, procura de abrigo, temperamento e estresse, habituação e aprendizado e interações interespecíficas. Na segunda categoria – comportamento social – podem ser incluídos os seguintes ítens: comunicação, gregariedade, dominância hierárquica e territorialidade. O comportamento reprodutivo, por sua vez, pode ser dividido em: geral, corte e cópula, nidificação, incubação, eclosão e pós-eclosão (LANG, 1987a).

Os crocodilianos, como outros répteis, regulam sua temperatura corpórea por uma combinação de mecanismos comportamentais e fisiológicos (SMITH, 1979). O comportamento de termorregulação inclui buscar e evitar fontes de calor. A alimentação demanda energia e leva à procura de calor enquanto que a abstinência alimentar leva o animal a evitar o calor a fim de diminuir sua taxa metabólica. Animais doentes procuram fontes de calor para aumentar sua resistência à doença. A resposta térmica à disponibilidade de alimento maximiza o ganho líquido de energia e promove um crescimento mais rápido para animais em cativeiro. Consequentemente a manutenção de uma faixa térmica adequada entre 25 e 30 graus Celsius determinará a taxa de crescimento, saúde e bem estar dos animais mantidos em cativeiro (LANG, 1987b).

O ciclo reprodutivo dos crocodilianos tem-se mostrado mais complexo e evoluído do que o dos demais répteis. Sua maturidade sexual é dependente do tamanho e idade dos animais, sendo que normalmente os machos crescem mais rápido e apresentam um porte maior que as fêmeas quando adultos. De um modo geral os jacarés, aligatores e os pequenos crocodilos alcançam a maturidade sexual com um porte relativamente pequeno, enquanto que os maiores crocodilos e o gavial tormam-se sexualmente maduros apenas quando relativamente grandes (MAGNUSSON et alli, 1989).

Ainda de acordo com estes autores, o período reprodutivo dos crocodilianos pode se distribuir ao longo do ano como no jacaré-tinga (Caiman crocodilus crocodilus) na Amazônia; em duas épocas distintas, como no crocodilo-do- Nilo (Crocodylus niloticus) em Uganda e no Quênia, em que algumas fêmeas ovipositam em agosto e outras em dezembro; ou por fim em uma determinada época do ano, como nas demais espécies.

Estabeleceu-se que a alimentação dos jacarés-de-papo-amarelo em cativeiro deve ser eficiente não só do ponto de vista da manutenção do animal mas também do crescimento dos jovens e da reprodução dos adultos. Deste modo, não sendo ainda possível o estabelecimento da nutrição adequada da espécie, por falta de dados, propõe-se que se estabeleça uma alimentação variada em que conste não só carne mas também ossos e víceras, na tentativa de suprir as necessidades dos animais quanto a crescimento e reprodução.

O custo da alimentação é um fator relevante por se tratar de uma espécie carnívora. Propôs-se a utilização na medida do possível de sub-produtos de origem animal como descartes de avicultura, suinocultura, bovinocultura, cunicultura e outras que se destaquem regionalmente. Estes materiais podem ser encontrados em grandes quantidade e baixo custo e já vêm sendo utilizados no Brasil e em outros países na alimentação de crocodilianos com bons resultados.

Estabeleceu-se que a forma e local de fornecimento do alimento devam ser função do porte e pré-condicionamento dos animais. De um modo geral deve-se fornecer aos filhotes e jovens carne moída com ossos e víceras, podendo complementá- la com presas vivas ou frescas como peixes pequenos e insetos atraídos por armadilha luminosa ou criados para este fim.

A alimentação dos filhotes deverá se iniciar a partir do quarto ou quinto dia após a eclosão dos ovos. Antes disso eles consomem suas próprias reservas nutricionais e não se alimentam. Nesta fase inicial eles parecem ser atraídos pela movimentação de pequenas presas como peixes, girinos e insetos, que podem ser fornecidos vivos em bandeja com 2 ou 3 cm de profundidade de água, uma vez ao dia. Assim que os filhotes exibam comportamento de procura pelo alimento pode- se iniciar o fornecimento diário (cinco a sete dias por semana) crescente de carne moída com ossos na margem da água até se chegar à quantidade de 3% de seu peso vivo em matéria original. A partir daí pode-se diminuir até cessar o fornecimento de presas vivas.

Os adultos exibem uma grande variação individual em relação ao comportamento e preferência alimentares, podendo se recusar a consumir determinados produtos sem causa aparente. Por isso deve-se tentar evitar dentro do possível mudanças bruscas de dieta, período de fornecimento e mesmo tratador, que dificultam o condicionamento dos animais. Sua alimentação deve ser fornecida uma única vez por semana na quantidade de 7% de seu peso vivo em matéria original, sendo constituída de presas inteiras como aves, peixes e pequenos roedores e pedaços de carne com ossos, de um tamanho que possa ser engolido por eles. Os animais adultos podem passar até três meses aproximadamente sem receber alimento nos meses de inverno nas regiões de clima mais frio.

Local e horário de fornecimento do alimento também devem ser função do comportamento individual e pré-condicionamento dos animais, além do esquema de trabalho local. Um estudo de comportamento alimentar de filhotes desenvolvido no CIZBAS/ESALQ/USP, a ser publicado, mostrou dois picos de procura por alimento ao longo do dia: um grande por volta do meio-dia e outro menor no início da noite, que coincidem com os períodos de maior atividade dos animais. Os filhotes normalmente condicionam- se com facilidade a apanhar o alimento fora d’água. Isto traz a vantagem de sujar menos a água do tanque. Os adultos mostram uma grande variação quanto a isso; alguns só apanham o alimento quando fornecido na água, outros o apanham na margem e trazem para a água e outros ainda apanham e ingerem o alimento fora d’água. Um bom resultado pode ser obtido condicionando-se os animais a apanhar o alimento em uma prancha de madeira inicialmente colocada quase inteiramente na água, sendo retirada gradualmente para fora.

A médio prazo a produção de rações industriais poderá ampliar a gama de subprodutos de origem animal e mesmo incluir alguns de origem vegetal na alimentação do jacaré-de- papo-amarelo em cativeiro.

O manejo reprodutivo do jacaré-de-papo-amarelo deve se iniciar já na formação do grupo reprodutor com animais adultos, sadios, bem instalados e bem alimentados. Para isso, antes de qualquer coisa deve- se proceder à sexagem dos animais. Como não há dimorfismo sexual evidente, isto requer a captura e imobilização dos animais. Nos adultos a sexagem é feita através de toque na cloaca, onde a presença do pênis no macho é facilmente percebida.

A formação de um grupo reprodutor da espécie tem como problema inicial a dificuldade de obtenção de animais sadios e férteis. São comuns casos de esterelidade em animais mantidos há muito tempo em cativeiro provavelmente por erros de manejo e são também comuns casos de não- adaptação ao cativeiro e morte de animais selvagens capturados adultos na natureza. O comportamento social eventualmente agressivo da espécie pode também dificultar a formação de um grupo reprodutor devido a brigas muitas vezes fatais. A médio e longo prazos a utilização de matrizes e reprodutores nascidos em cativeiro tende a aumentar a oferta de bons animais para reprodução. Quanto ao aspecto da agressividade durante a formação do grupo, um estudo desenvolvido no CIZBAS/ESALQ/USP de 1987 a 1991, a ser publicado, mostra que as interações agonísticas (brigas) em grupos em formação, normalmente ocorrem entre animais de porte diferente, mesmo que sejam de mesma origem e de sexos opostos. Daí, portanto, propõe- se a formação de grupos com animais de porte semelhante, independente de terem ou não a mesma origem. A proporção ideal entre machos e fêmeas ainda necessita de estudos para sua determinação apesar de vários valores empíricos serem defendidos. Os parques zoológicos e centros de pesquisa que conseguiram a reprodução da espécie em cativeiro possuiam desde simples casais até grupos compostos de vários machos e fêmeas.

Propôs-se que os recintos utilizados para a espécie sejam objetivamente avaliados em relação à sua função. Deste modo, os recintos de reprodução deverão ser avaliados pelo índice reprodutivo dos animais; os recintos de crescimento pela taxa de crescimento dos animais e assim por diante. O conceito de bem- estar animal apesar de obviamente importante é subjetivo e de difícil definição. Assim, o planejamento de um recinto deve levar em conta as exigências mínimas conhecidas da espécie para a realização da função a que se propõe, além, é claro, dos demais aspectos sanitários e de manejo ligados a ele. Desta forma, propõs-se a classificação de cinco tipos básicos de recinto: de reprodução, de crescimento, de exposição, misto e outros.

a) Recintos de Reprodução:
Tratam-se normalmente de recintos abertos, a temperatura ambiente que, como o nome diz, destinam-se a propagação em cativeiro da espécie, principalmente em centros de pesquisa e criadores particulares. A área mínima por animal, apesar de alguns valores empíricos serem defendidos, ainda necessita de estudos para sua determinação. Os parques zoológicos e centros de pesquisa que conseguiram a reprodução da espécie em cativeiro utilizaram desde aproximadamente 50 até centenas de metros quadrados por animal. Há também grande variação em relação ao tamanho e formato dos tanques. De um modo geral ocupam aproximadamente a metade da área total, com profundidade máxima de pelo menos um metro e rampas laterais levemente inclinadas. Tanques com formatos arredondados ou sinusóides parecem diminuir o número de brigas entre animais em relação a tanques com formato quadrado ou retangular. O concreto costuma causar ferimentos nos membros dos animais, o que não ocorre nos tanques de terra. A manutenção do limo em tanques de concreto diminuem ou mesmo eliminam este problema.
Na parte seca do recinto deve-se fornecer um ambiente parcialmente sombreado para que os animais possam buscar ou evitar a insidência solar direta. Isto é facilmente obtido em recintos vegetados com arbustos ou árvores.As fêmeas têm a tendência de nidificar nos locais mais “protegidos” do recinto. Por isso podem-se construir “abrigos de nidificação”, como os utilizados no CIZBAS/ESALQ/USP, de alvenaria ou madeira. Tratam-se de compartimentos de 2 x 2 metros com paredes de 1,5 metro de altura e uma única entrada de 0,5 metro de largura, onde as fêmeas costumam construir seus ninhos. Estes abrigos parecem também auxiliar na introdução de novos animais em um grupo já estabelecido. Conforme observações feitas, os animais introduzidos permanecem de poucos minutos a alguns dias isolados em seu interior antes de serem vistos próximos aos outros.
b) Recintos de Crescimento:
Destinam-se a animais em crescimento, principalmente em centros de pesquisa e criadores particulares. Nas criações intensivas os recintos de crescimento podem ter a principal função de fornecer aos animais uma temperatura ótima para seu crescimento, podendo tratar-se desta forma desde caixas d’água adaptadas até galpões especialmente construídos para este fim.Os recintos aquecidos de crescimentos devem contar com bom isolamento térmico, uma fonte de calor ligada a um termostato, alta densidade animal e pouca quantidade relativa de água, a ser trocada diariamente. Nas criações de aligator na Lousiana/EUA, usa-se temperatura constante de 30 graus Celsius, densidade inicial de 10 animais por metro quadrado, diminuindo gradativamente até chegar a 3 animais por metro quadrado aos 12 a 18 meses de idade (época de abate) em módulos de vinte metros quadrados com um espelho d’água de dez metros quadrados com profundidade máxima de 20 a 25 centímetros.

Recintos abertos de crescimento a temperatura ambiente podem apresentar bons resultados em regiões de clima quente. Mesmo assim, normalmente propiciam um crescimento mais lento aos animais. Tratam-se de recintos simples, normalmente com um tanque comprido e estreito de fácil limpeza e manejo dos animais, com profundidade máxima de pelo menos 60 centímetros, ocupando até cerca de 50% de sua área total. Em sua parte seca deve-se fornecer também um ambiente parcialmente sombreado onde os animais possam buscar ou evitar a insidência solar direta. Durante o inverno podem-se utilizar lâmpadas de aquecimento ou resistências em compartimentos protegidos dentro do recinto ou mesmo aquecer diretamente a água do tanque. Pequenos montes de palha podem servir como paliativo na proteção dos animais contra o frio excessivo. Por outro lado, o hábito de alguns animais, principalmente jovens, de permanecerem por longos períodos em seu interior sem se alimentar, faz com que no verão devam ser evitados.

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